Eu não lembro quando aconteceu.
Não lembro em que momento desta existência eu me senti leve.
Eu não tenho essa memória no corpo.
Sou uma mulher de estrutura corporal grande.
Ombros largos.
Um corpo que parece ter sido feito para carregar peso.
E ele não se formou assim apenas por genética.
Ele foi se moldando ao longo do tempo.
Porque, ao longo do tempo, eu fui percebendo o peso da existência.
Não como ideia.
Mas como realidade.
Eu via esse peso nas minhas ancestrais.
Nos corpos delas.
Nos silêncios.
Na forma como a vida se apoiava nelas sem pedir permissão.
Ser mulher sempre foi sinônimo de fardo.
Ser mãe, mais ainda.
Então o corpo aprende.
Ele se prepara.
Ele cria largura onde será exigido sustento.
Ele se enrijece onde não pode ceder.
Mesmo assim, eu caí inúmeras vezes.
Muitas quedas não por fraqueza,
mas por pura vontade de aliviar o peso.
Desde a infância eu sinto.
Desde a adolescência eu tento.
Hoje, adulta,
com uma jornada considerável de autoconhecimento, com consciência, ferramentas e rede,o peso ainda está aqui.
Ele recua às vezes.
Dá pequenos espaços de respiro.
Mas volta com força na primeira oportunidade.
E isso cansa.
Cansa ainda mais quando a recaída vem depois de já ter tentado fazer diferente.
Existe um desgaste específico em saber, em compreender, e ainda assim não conseguir sustentar o novo.
Mas eu sei por quê.
Porque esse peso não é só meu.
Eu não posso ignorar o peso ancestral.
Eu não posso me curar sem reconhecer a dor das minhas ancestrais.
A dor delas atravessou gerações.
Ela se inscreveu nos corpos.
Ela se gravou em mim.
E existe algo que precisei reconhecer com honestidade: meu corpo não se sente seguro o suficiente porque eu permaneço sozinha na gestão da vida.
Da minha vida.
E da vida dos meus filhos.
Isso não é apenas padrão emocional.
É realidade concreta.
Quando não há retaguarda, o corpo não relaxa.
Ele permanece em prontidão.
Não por trauma apenas, mas por responsabilidade.
O peso, então, não é só fardo.
Ele também foi estrutura.
Chão.
Sustentação.
Talvez eu ainda não tenha aprendido a soltar porque soltar exige algo que não se constrói só com consciência: segurança vivida no tempo.
Hoje, eu não me cobro leveza.
Eu reconheço o corpo que me manteve de pé quando não havia outra opção.
Talvez o início de fazer diferente não seja tirar o peso dos ombros,
mas escolher, com lucidez, o que ainda precisa ser carregado e o que, aos poucos, pode começar a ser devolvido à história.
Se você, mulher, que está lendo este texto se identifica com essa sensação de peso —
e mesmo já tendo acessado consciência, ferramentas e caminhos de autoconhecimento ainda sente que algo permanece — talvez não seja falta de esforço ou profundidade.
Talvez seja porque essa experiência não se resolve apenas no nível individual.
O Mergulho Sistêmico é uma possibilidade para esse momento: um olhar direto para o campo que sustenta esse peso e para o que ele revela, antes de tentar soltar, transformar ou seguir adiante.
